Rodrigo Carrijo

Minhas meditações sobre a Palavra de Deus e vida cristã

No final do ano passado duas notícias de falecimento correram o mundo, com ampla divulgação. No dia 15 de dezembro faleceu o jornalista e escritor britânico Christopher Hitchens, aos 62 anos, vítima de um câncer no esôfago,  e no dia 17, aos 69 anos, o líder norte-coreano Kim Jong-il em decorrência de um ataque cardíaco.

Hitchens era um ateu convicto, de mente aguçada e língua bastante afiada contra qualquer sistema religioso, em particular o Cristianismo. Um de seus best-sellers chama-se “Deus não é grande – como a religião envenena tudo”, baseado na idéia de que não foi Deus quem criou o homem à Sua imagem, mas o contrário. Uma busca rápida na Internet traz uma enormidade de entrevistas, declarações, citações e muitos vídeos de debates e palestras onde Hitchens defende a abordagem humanista e racionalista como único caminho para a compreensão e deleite da vida, e também muitas críticas fervorosas  à religião e a Deus, grande parte delas desferidas com seu característico tom irônico e debochado ao comentar os absurdos das crenças religiosas.

Kim Jong-il, “o querido líder” ou “nosso pai” como era comumente chamado,  comandou o país com mão de ferro desde 1994, cujo governo caracterizou-se pelo controle do exército, o uso da propaganda e do tão exagerado culto à sua excêntrica e divinizada personalidade (segundo o governo, até animais como ursos e corvos estão chorando a morte do ditador). A Coréia do Norte foi listada pela missão Portas Abertas pela décima vez consecutiva como o país que mais persegue cristãos, que lá são considerados inimigos de estado. Estima-se que 50 a 70 mil deles estejam em campos de trabalhos forçados (fonte: Diário Digital – 4/1/2012)

Ao refletir sobre a vida – e agora a morte – destes homens, curiosamente senti duas coisas distintas. Hitchens  falava de Deus e do evangelho com um tom tão jocoso, maldoso e irreverente que é impossível a um crente  assitir a alguns minutos de seus discursos sem se sentir ofendido (e chocado) pelo modo como se refere a Deus e ao Cristianismo. Mas eu orava por ele; orava por sua conversão. Ele expressou algumas vezes que tinha o receio de que aparecessem histórias sobre uma suposta conversão sua no leito de morte. “Apenas se eu estiver em grande dor, com a consciência alterada por drogas e medicamentos, ou se a dor for tamanha a ponto de eu não conseguir mais me controlar. Mas em lucidez, isso não acontecerá”, disse em entrevista a um jornalista da CNN. Hitchens tinha conhecimento de que havia grupos de oração pela sua conversão – e também grupos engajados na difamação e ódio contra ele – mas isso não o despertava à fé de forma alguma.

Mas eu orava por ele e ficava imaginando como seria se um expoente tão proeminente do ateísmo se convertesse ao Senhor. Que grande testemunho seria, eu pensava. Com a notícia de sua morte fiquei a refletir sobre o terrível fim daqueles que morrem sem Cristo, e que no caso de Hitchens, O rejeitam mais enfaticamente e ainda levam outros para o mesmo caminho. Mesmo sendo ele um ateu tão resoluto, foi com certo pesar que li sobre sua morte, como se a possibilidade de ele ter uma sobrevida pudesse ainda dar-lhe a chance de arrepender-se.

Mas no caso de Jong-il não senti da mesma forma, confesso. Me lembro de uma única vez ter orado pela conversão daquele homem, imaginando um dia em que o país líder em perseguição aos cristãos pudesse, enfim, experimentar uma grande transformação espiritual. Mas quando veio a notícia de sua morte, o sentimento, lá dentro, foi de “esse foi tarde”.

Talvez a diferença fundamental entre estes dois sentimentos seja pela forma como ambos combatiam a fé cristã: um através das idéias e do discurso; o outro, através da força, do assassínio e repressão. Creio ser natural que mais se repudie aquele que mais atrocidades cometeu contra os crentes. Mas independente disso, ambos careciam do Senhor em suas vidas.

Por mais obstinados que estes homens fossem em seus pecados e por mais que suas atitudes despertassem em nós o zelo pela Verdade revelada na Palavra de Deus e pelos irmãos em perseguição, não deveríamos odiá-los e, lá no fundo, sentir certo alívio com suas mortes. Mateus registra as palavras de Jesus: “...amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem”. Convém lembrar-nos que éramos inimigos de Deus e que se não fosse unicamente por Sua grande graça e misericórdia, partilharíamos do mesmo fim que os inimigos da Cruz enfrentam. Embora nos ofendamos com blasfêmias contra o nosso Senhor e desejemos a retibuição de Deus aos que perseguem o seu povo, nosso próprio senso de justiça é embotado pelo pecado, pois dificilmente clamamos que Deus também execute sua justiça quando nós é que pecamos, por exemplo.

É o aparente contra-senso dos ensinamentos de Cristo que devemos obedecer: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem. Esqueça qualquer outra lógica que, aparentemente, faça mais sentido que esta. É esta que devemos seguir e não somente para com os grandes e notórios expoentes da inimizade contra  Deus, mas com todos aqueles ao nosso redor que desprezam a Cristo.  Não é um amor condescendente, inerte, conivente com blasfêmias, atrocidades e pecados mas um amor que verdadeiramente se importa com os que estão distante do caminho do Senhor, que exorta e ora por eles.

Se senti, com certo alívio, que Kim Jong-il “foi tarde”, sem sentir pesar por mais uma alma que está definitivamente separada de Cristo, agora preciso rever isso.

Já comecei a orar pelo seu sucessor, seu filho Kim Jong-un. Que tal se juntar a mim?